É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões
***
Este poema de Camões traz à tona o lirismo da sua poesia. A nobreza dos seus versos traz em si características do mais puro sentimento: o 'Amor'.
Nas primeiras linhas do soneto, Camões refere-se à sensação intensa e ardente do Amor, o que constitui na sua poesia o caráter abstrato e, ao mesmo tempo, solidificado deste sentimento que se subsiste por si.
Existe, neste poema camoniano, a consciência real da sensibilidade, do que é o amor verdadeiro.
A lírica camoniana, com o seu gosto pelas antíteses, ressalta o desejo, a procura, o contentamento, a vontade firme que representa o Amor.
Com efeito, o sentido do poema sobreleva as contradições existenciais e, mais do que tudo, a renúncia à própria condição de amar.
Este texto foi escrito em parceria com a minha amiga Kellen Cristina em dezembro de 1996 - no auge dos meus 20 anos e início da minha caminhada pelo mundo das letras. De lá para cá, tudo gira em torno do amor, da inspiração e das palavras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Pelo seu comentário, sorrio por dentro.